A mancha aparece embaixo da janela, ou no canto junto ao batente. Pinta, e alguns meses depois ela está de volta no mesmo desenho.
A leitura comum é que a parede está infiltrando. Quase sempre a parede é só o caminho: a água entrou pelo vão, e o vão tem quatro pontos conhecidos de falha.
A esquadria não vaza: o encontro dela com a parede, sim
Esquadria bem fabricada é projetada contando que vai receber água. O perfil tem câmaras e caminhos para conduzir o que entra de volta para fora, e isso funciona.
O que falha é a interface. Entre o marco da esquadria e a alvenaria existe um vão de instalação, e é ele que precisa estar vedado, protegido e com caimento correto. Quando não está, a água encontra o caminho mais fácil, que é para dentro.
Os quatro pontos onde a água entra
A vedação perimetral. O cordão de selante entre o marco e a alvenaria tem vida útil: ressseca, perde elasticidade, descola e trinca, principalmente na face que recebe sol e chuva. É a causa mais comum e a mais barata de corrigir, e também a que mais se tenta resolver aplicando selante novo sobre o antigo, o que não adere e volta em pouco tempo.
O peitoril. Precisa ter caimento para fora e pingadeira, que é o sulco ou a saliência na face inferior que interrompe o escorrimento. Peitoril plano, ou com caimento invertido, entrega água à parede. Peitoril sem pingadeira deixa a água contornar a borda e escorrer pela fachada, o que produz a mancha vertical logo abaixo da janela.
A drenagem do próprio perfil. Janela de correr tem furos de drenagem no trilho inferior, para devolver a água que entra por ali. Esses furos entopem com poeira, folha e resíduo de obra. Entupidos, o trilho vira uma calha que enche, e quando transborda, transborda para dentro.
A fixação e o contramarco. Instalação sem contramarco, ou com espuma expansiva deixada como acabamento final, cria um caminho contínuo entre o exterior e o interior da alvenaria.
Como distinguir de outras origens
Três observações separam infiltração por esquadria das demais causas de umidade.
A relação com chuva de vento. Infiltração pelo vão costuma depender de chuva batendo naquela face específica. Chove forte sem vento e nada acontece; chove com vento daquela direção e a mancha reaparece.
A localização. A mancha começa na lateral do vão, na soleira ou logo abaixo do peitoril, e avança de lá. Umidade que nasce no meio da parede, longe do vão, raramente vem da esquadria.
A ausência de relação com o uso. Se a mancha piora com janela fechada, no frio, ou logo após o banho, e não tem relação com chuva, a hipótese provável é outra: condensação, que é água formada ali mesmo. E se o que existe é uma trinca saindo do canto do vão, o caminho de investigação é outro ainda.
O ensaio que confirma
O ensaio de estanqueidade molha a região de forma controlada enquanto alguém observa por dentro. O que faz ele funcionar é a setorização: molha-se primeiro só o peitoril, depois só uma lateral, depois a outra, depois a travessa superior, sempre de baixo para cima.
Molhar tudo de uma vez confirma que entra água e não diz por onde, que é justamente a informação que decide o reparo. Por setor, o ponto aparece.
A termografia complementa mapeando a extensão real da área molhada por dentro, que costuma ser maior que a mancha visível, e o medidor de umidade confirma até onde o material está saturado.
Por que refazer a pintura não resolve
Pintura é revestimento, não barreira. Enquanto o caminho de entrada existir, a água continua chegando à alvenaria pelo mesmo ponto, e a tinta nova descola no mesmo prazo da anterior.
Há um agravante quando se aplica tinta impermeável pelo lado de dentro: a água que já entrou passa a não conseguir secar, e o reboco se degrada mais rápido do que se nada tivesse sido feito.
