A faixa começa junto ao rodapé e sobe até uma altura que parece arbitrária. Não é: naquela parede, ela para sempre mais ou menos no mesmo lugar. O reboco esfarela ao toque, e um pó branco aflora na superfície.
Esse conjunto é característico, e aponta para uma origem específica entre as possíveis causas de umidade: a água veio do solo e subiu pela alvenaria.
Distinguir isso de infiltração e condensação é o que decide o tratamento, porque as três pedem intervenções completamente diferentes.
Como a água sobe contra a gravidade
Alvenaria, argamassa e reboco são materiais porosos, atravessados por uma rede de canais finíssimos. Em canais dessa dimensão, a tensão superficial da água supera o peso da coluna que ela precisa sustentar, e a água sobe. É o mesmo efeito de encostar a ponta de um papel toalha numa poça.
Quanto mais fino o poro, mais alto o líquido consegue subir. E a altura em que a faixa estabiliza é o ponto de equilíbrio entre o que sobe por capilaridade e o que evapora pela face da parede. Por isso a linha é razoavelmente constante e horizontal, ao contrário da mancha de infiltração, que tem contorno irregular.
O sal é a assinatura
A água do solo não sobe pura: ela traz sais dissolvidos. Ao evaporar na superfície da parede, a água vai embora e o sal fica.
Quando cristaliza sobre o revestimento, aparece como o pó branco da eflorescência. Quando cristaliza dentro do poro, antes de alcançar a superfície, o crescimento do cristal exerce pressão de dentro para fora e rompe o reboco.
É esse segundo mecanismo que explica por que na umidade ascendente o reboco esfarela e se desprende, em vez de apenas manchar. O dano não é da água: é do sal que ela carregou.
Por que a barreira falha, ou nunca existiu
A proteção contra esse fenômeno é uma barreira impermeável na base da alvenaria, entre a fundação e a parede. Quatro situações comprometem esse arranjo.
Nunca houve. Comum em construções antigas e em obras executadas sem acompanhamento técnico.
Existiu e rompeu. Movimentação, recalque ou reforma que atingiu a base podem interromper a continuidade da barreira, e basta o trecho rompido para a água encontrar caminho.
A água entra por cima dela. É a causa mais frequente e a menos percebida: terra de canteiro encostada na parede, aterro, calçada refeita em cota mais alta, jardim elevado. A barreira continua íntegra, e a água simplesmente passa acima do ponto em que ela protege.
A barreira é parcial. Protege a alvenaria e não protege o contrapiso, ou o contrário, e a umidade contorna.
Por que pintar acelera o dano
Essa é a parte contraintuitiva, e a razão pela qual tanta parede piora depois de tratada.
A faixa estabiliza numa altura porque a evaporação pela face equilibra o que sobe. Ao aplicar tinta impermeável, textura ou massa acrílica, essa evaporação é bloqueada. A água que continua subindo precisa sair em algum lugar, e passa a sair mais acima, ou a se acumular atrás do filme.
Com ela, o sal. Cristalizando atrás de um revestimento que não deixa passar, o sal descola o conjunto em placas, e o que antes era uma faixa esfarelando vira revestimento caindo.
A pintura impermeável não segura a água. Ela muda o lugar onde o dano acontece, e normalmente para pior.
Como se confirma
A medição de umidade em alturas crescentes na mesma parede produz um perfil decrescente característico, com os valores mais altos junto à base. Esse perfil, comparado com o de paredes vizinhas e com a face oposta, separa ascendente de infiltração lateral.
A termografia mostra a faixa como região mais fria, por efeito da evaporação, e delimita a extensão real, que costuma passar do que se vê. E a inspeção do entorno responde a pergunta que mais resolve na prática: qual é a cota do terreno, do canteiro e da calçada em relação à base da parede.
O que resolve, e em que ordem
Primeiro, eliminar ou reduzir a fonte, quando isso é possível: afastar terra encostada, corrigir cota de calçada, resolver drenagem, redirecionar água que se concentra junto à parede. Em parte dos casos essa etapa sozinha já reduz drasticamente o quadro.
Depois, restabelecer a barreira, por método compatível com a alvenaria existente.
Só então reconstituir o revestimento, com material que permita a saída do vapor enquanto o trecho seca. Reboco novo aplicado antes da barreira é o mesmo reboco perdido outra vez, com a diferença de que agora ele custou duas vezes.
