A água do banho corre para trás do vaso em vez de ir para o ralo. A varanda, depois da chuva, escorre para dentro da sala. A área de serviço acumula uma poça que fica ali até evaporar, sempre no mesmo canto.
São situações tratadas como implicância de morador, e não são. Cada uma delas indica que o piso foi executado com declividade insuficiente, ausente ou invertida.
Caimento é projeto, não acabamento
Todo piso de área molhada precisa de declividade em direção ao ponto de coleta. Não é detalhe de acabamento nem preferência do assentador: é o que garante que a água saia por onde deve sair, e não por onde encontrar caminho.
O erro de execução mais comum é tratar o caimento como algo a resolver no assentamento do revestimento, sobre um contrapiso nivelado. A espessura disponível na argamassa de assentamento é pequena, e o resultado costuma ser uma declividade insuficiente, irregular, ou conseguida apenas na faixa próxima ao ralo.
Os três erros, e o que cada um produz
Declividade insuficiente ou ausente. A água não escoa por gravidade, fica parada e só sai por evaporação. É o caso da poça que reaparece sempre no mesmo ponto.
Declividade invertida. A água corre exatamente para onde não deveria: para a soleira, para o cômodo seco, para a base de uma parede. É o caso da varanda que molha a sala e do box que molha o restante do banheiro.
Declividade correta com obstáculo no caminho. Existe caimento, mas há um ponto alto entre a água e o ralo, ou o ralo foi posicionado fora da região baixa. A água caminha e para antes de chegar.
Onde aparece com mais frequência
- Varanda e sacada que escoam para dentro em vez de escoar para o ralo ou para o exterior
- Box que joga água para a área seca do banheiro em vez de conter
- Região atrás do vaso sanitário, onde a água estaciona e não seca
- Área de serviço com o ralo em cota igual ou superior ao restante do piso
- Piso sob gabinete, sob a geladeira ou atrás da máquina de lavar
- Terraço e laje descoberta com pontos baixos longe dos coletores
O que a água parada causa depois
O incômodo diário é a parte visível, e é a menos importante.
Água permanentemente em contato com o rejunte e com a argamassa de assentamento acelera a degradação da camada e a perda de aderência, que é como o quadro evolui para piso oco e piso estufando. Em área molhada, a saturação prolongada também aumenta a solicitação sobre a impermeabilização, que pode levar umidade ao cômodo vizinho ou ao pavimento inferior.
Somam-se mofo e odor persistente pela umidade que nunca cessa, e eflorescência quando a água atravessa a argamassa carregando sais. O caimento errado raramente permanece só um problema de caimento.
É dos poucos defeitos que se demonstram com um balde
A verificação inicial é acessível a qualquer pessoa: despeja-se água no ponto mais distante do ralo e observa-se o percurso. Se a água caminha até o coletor sem hesitar, o caimento cumpre a função. Se estaciona, se espalha, ou parte dela toma outro rumo, não cumpre.
A verificação técnica mede o que a observação estima. Nível a laser e trena definem a diferença de cota entre os pontos extremos e o coletor, identificam a existência de pontos altos intermediários e produzem o registro que sustenta uma reclamação, quando é o caso.
Em imóvel recém-entregue, essa é uma das verificações que cabem na vistoria de recebimento, e é bem mais simples resolver com a construtora antes de assinar o termo do que depois.
Nem sempre exige refazer
Quando o desvio é pequeno e localizado, existem correções pontuais: reposicionar ou rebaixar o ralo, criar barreira ou desnível na transição, refazer apenas a faixa próxima ao coletor.
Quando a declividade é invertida em todo o pano, ou quando o contrapiso foi executado nivelado, a correção passa por refazer a base. É mais caro, e é o motivo pelo qual vale verificar antes de o revestimento estar assentado.
