A mancha aparece no canto do quarto, atrás do guarda-roupa. Alguém impermeabiliza a parede pelo lado de fora. Alguns meses depois ela está de volta, e agora o reboco também está esfarelando.
Quando isso acontece, a hipótese mais provável é que a água nunca veio de fora. Ela se formou ali mesmo, condensando a partir do ar do ambiente. E é o único caso de umidade em que a solução mais vendida piora o quadro.
Umidade tem mais de uma origem possível, e distinguir entre elas é o que decide o tratamento. Este texto trata de uma delas em detalhe: a condensação, que é a mais difícil de aceitar e a mais fácil de provar.
Ar quente segura água; ar frio, não
O ar de dentro de casa sempre carrega vapor de água. Ele vem do banho, do cozimento, da roupa secando, das plantas e das próprias pessoas respirando.
A quantidade de vapor que o ar consegue sustentar depende da temperatura: ar mais quente sustenta mais. Quando esse ar encontra uma superfície fria, ele esfria no contato, perde capacidade de sustentação, e o vapor excedente vira água líquida sobre a superfície.
É exatamente o copo gelado que sua num dia abafado. A água não atravessou o vidro: ela se formou do lado de fora dele. A parede faz a mesma coisa.
Ponto de orvalho: o número que decide
Para uma dada temperatura do ar e uma dada umidade relativa, existe uma temperatura abaixo da qual o vapor condensa. Ela se chama ponto de orvalho.
A partir daí a conclusão é direta. Se a superfície está abaixo do ponto de orvalho, vai condensar ali. Se está acima, não vai. Não é interpretação nem opinião: é a comparação entre dois números.
O que falta, na maioria dos diagnósticos, é justamente medir esses dois números.
Como se mede
O termo-higrômetro lê a temperatura e a umidade relativa do ar do ambiente. Desses dois valores sai o ponto de orvalho daquele cômodo, naquele momento.
A câmera termográfica lê a temperatura das superfícies, ponto a ponto, e mostra o mapa térmico da parede inteira em vez de uma medição isolada.
Comparar os dois resolve a questão: as regiões da superfície que aparecem abaixo do ponto de orvalho são exatamente as regiões onde a água se forma. E costumam coincidir com o que o morador já percebeu sem saber explicar.
Isso também responde por que a mancha aparece onde aparece. Canto de parede troca calor por duas faces e fica mais frio que o centro. Atrás do armário não há circulação de ar, e a superfície esfria mais. Parede de divisa com área externa, com garagem ou com caixa de escada é mais fria que parede interna. São os pontos frios, e é neles que a condensação começa.
Por que impermeabilizar piora
A impermeabilização serve para impedir que a água atravesse a parede de fora para dentro. Quando a água se forma do lado de dentro, ela não tem o que impedir: o ar continua encostando na superfície fria do mesmo jeito.
E há um efeito adicional. Revestimento impermeável aplicado sobre alvenaria úmida prende a umidade dentro do reboco, que passa a não conseguir secar. O resultado é descolamento mais rápido do que se nada tivesse sido feito, e um gasto que precisa ser refeito antes de resolver qualquer coisa.
O que de fato resolve
Não é uma medida única, e é por isso que medir vem antes de contratar. Dependendo do caso, a combinação envolve aumentar a ventilação para retirar o ar carregado de vapor, elevar a temperatura da superfície para tirá-la da faixa de condensação, reduzir a geração de vapor no ambiente, ou tratar termicamente a parede quando a diferença de temperatura tem origem construtiva.
Cada uma resolve alguns casos e não resolve outros. Aplicar a errada custa dinheiro e devolve o problema no inverno seguinte.
Sinais de que o caso é condensação
- Piora no inverno e em períodos de janela fechada
- Aparece ou intensifica logo depois do banho ou do cozimento
- Concentra em cantos, atrás de móveis encostados e em parede de divisa com área externa, garagem ou escada
- Não tem relação com a chuva, e pode piorar em semana seca
- A superfície é perceptivelmente fria ao toque, mais que as paredes vizinhas
- O vidro da janela amanhece molhado por dentro
- O mofo volta pouco tempo depois de cada pintura, no mesmo desenho
Esses sinais orientam a suspeita e não fecham diagnóstico. O que fecha é a leitura do ar, a leitura da superfície e a comparação entre as duas, que é o que distingue água que se formou ali de água que chegou de outro lugar.
