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Quesitos de perícia: por que os genéricos não provam nada

A perícia responde o que foi perguntado. Pergunta ampla devolve resposta ampla, e resposta ampla não sustenta tese nenhuma.

O quesito é apresentado assim: existem vícios construtivos no imóvel? O perito responde que sim, descreve três constatações e conclui. À primeira leitura parece uma vitória.

Não é. Aquela resposta não diz de onde vieram, se decorrem de execução ou de uso, quando surgiram, nem quanto custa corrigir. Ela confirma a existência de um problema que ninguém negava, e deixa em aberto exatamente o que estava em disputa.

A perícia responde o que foi perguntado

Essa é a regra prática que organiza tudo o mais. O perito trabalha sobre os quesitos deferidos, e uma pergunta ampla o autoriza, legitimamente, a dar uma resposta ampla.

Por isso a qualidade da prova técnica se decide antes da diligência, na redação. Depois que o laudo é entregue, discutir o que ficou de fora é bem mais difícil do que ter perguntado a tempo.

Quatro eixos, e cada um precisa de quesito próprio

Existência. O que há, onde, em que extensão. É o eixo mais fácil e o único que a maioria dos quesitos cobre.

Causa. Qual o mecanismo que produziu aquilo. Sem esse eixo, a constatação não se liga a ninguém.

Nexo temporal. Quando se originou, e se é compatível com o período de execução, com o de uso ou com evento específico. É o eixo que costuma decidir responsabilidade e é o mais esquecido.

Quantificação. Qual a extensão real e qual o custo de correção, com critério declarado. Sem isso, a fase seguinte recomeça a discussão.

Quesito que pede opinião, quesito que pede verificação

Compare duas formulações sobre o mesmo ponto.

A primeira: o imóvel foi bem construído? É pergunta de juízo de valor. Devolve resposta subjetiva, que a outra parte contesta com igual subjetividade, e o julgador fica com duas opiniões.

A segunda: o cobrimento da armadura atende ao mínimo exigido pela norma para a classe de agressividade do local? Informar os valores medidos, os pontos de medição e o método empregado. Devolve número, local e método. Isso sustenta ou derruba, e não se contesta com adjetivo.

A diferença entre as duas não é de estilo. É a diferença entre produzir prova e produzir debate.

Está passando por isso agora? Descreva o que está acontecendo e dizemos qual verificação responde. Se não for caso para laudo, dizemos isso também.
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O que costuma ficar de fora e faz falta depois

  • Quesito sobre o método: com qual instrumento foi medido, em quantos pontos, em que condição
  • Quesito sobre o que não foi examinado, e por qual razão
  • Quesito documental: existe projeto, memorial, ART de execução, e o executado corresponde ao projetado
  • Quesito sobre a evolução: o quadro é estável ou está progredindo
  • Quesito de quantificação com critério de orçamento declarado

O segundo item merece destaque, porque quase nunca é formulado. A ausência de exame de um ponto relevante é informação com valor próprio, e só aparece nos autos se alguém perguntar.

Os quesitos da outra parte mudam os seus

Quem redige pensando apenas na própria tese entrega metade do trabalho. Antecipar o que a parte contrária vai perguntar permite duas coisas: cobrir antes o ponto que ela pretende explorar, e formular o quesito que torna a resposta dela menos útil.

Esse exercício é técnico antes de ser processual, e é onde a leitura de quem conhece o comportamento do material faz diferença sobre a leitura de quem conhece apenas o rito.

É também o motivo pelo qual a redação dos quesitos costuma ser o momento em que o assistente técnico rende mais: ele não entra para discordar do laudo depois, entra para que a pergunta certa tenha sido feita antes.

Perguntas frequentes

Quem redige os quesitos?

A parte, por meio do advogado, que conhece a tese e o rito. O conteúdo técnico, porém, costuma vir de quem domina o material: qual grandeza medir, com que instrumento, em quantos pontos e em qual condição. Quesito redigido sem esse insumo tende a ser amplo demais ou a pedir algo que não se mede na prática.

Existe número ideal de quesitos?

Não é questão de quantidade. Vinte quesitos sobre existência provam menos que cinco bem distribuídos entre existência, causa, nexo temporal e quantificação. Excesso de perguntas repetitivas costuma inclusive convidar respostas padronizadas, que é o oposto do pretendido.

Dá para acrescentar quesito depois?

Cada fase tem seu momento próprio para isso, e ele não se repete indefinidamente. Na prática, tratar a redação como algo que pode ser corrigido depois é a forma mais comum de perder a oportunidade. O momento adequado é definido no processo, e vale confirmá-lo com antecedência.

O perito é obrigado a responder todos?

Responde os que foram deferidos. Quesito impertinente ou que extrapole a matéria técnica pode ser indeferido, e quesito mal formulado tende a receber resposta evasiva sem que isso configure omissão. Formular com precisão é o que reduz a margem para resposta genérica.

Vale perguntar sobre o que não foi examinado?

Vale, e é dos quesitos mais úteis e menos usados. Quando um ponto relevante deixa de ser examinado, seja por falta de acesso, seja por escolha metodológica, isso precisa constar dos autos. Sem quesito específico, a ausência simplesmente não aparece, e depois é tarde para demonstrar que ela existiu.

Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação técnica de um caso concreto. Cada edificação tem histórico, sistema construtivo e condições próprias.

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