Na data marcada, um representante da construtora acompanha você pela unidade com uma prancheta. Vocês percorrem os cômodos, ele anota alguns itens de acabamento, você assina. Em geral leva menos de uma hora, e a sensação é de que o processo foi cumprido.
Foi mesmo. Só que o processo cumprido é o da empresa.
Os dois objetivos não são o mesmo
A vistoria conduzida pela construtora existe para formalizar a entrega e registrar pendências evidentes de acabamento. É um procedimento legítimo, e nenhuma entrega acontece sem ele. Mas o objetivo dela é encerrar uma etapa contratual.
O objetivo de quem recebe é outro: confirmar que o imóvel corresponde ao que foi comprado e que os sistemas funcionam. São coisas diferentes, e a diferença aparece nos detalhes que o roteiro padrão não cobre.
O que o roteiro padrão raramente alcança
- Comparação com o memorial descritivo. O documento que define marca, modelo e padrão de cada item raramente está em mãos na hora da vistoria. Sem ele, não há como saber se o que está instalado é o que foi contratado
- Medidas de ambiente. Diferença entre a área prometida e a entregue não aparece a olho nu, e é um dos itens mais relevantes de todos
- Caimento de piso. Box, varanda e área de serviço precisam escoar na direção do ralo. Verificar isso exige nível, não impressão
- Teste de funcionamento. Acionar cada ponto elétrico, cada registro, cada descarga, cada tranca e cada janela leva tempo, e é justamente o que costuma ser abreviado
- Som cavo em revestimento. Piso e parede que soam ocos indicam falha de aderência que só aparece meses depois, quando a peça se solta
- Indícios de vício oculto. Manchas, remendos recentes e sinais de infiltração já tratada pedem leitura técnica para serem interpretados
Por que o momento importa tanto
Vícios aparentes precisam ser apontados no recebimento. O que é assinado sem ressalva passa a ser discutido a partir de uma posição pior: a empresa argumenta, com alguma razão, que o imóvel foi aceito como estava.
Depois da assinatura, cada item vira uma negociação isolada, agora com você já morando e com o custo de qualquer correção multiplicado por mobília, transtorno e tempo. Antes da assinatura, tudo é uma lista só, e a lista tem força.
Como as duas vistorias convivem
Não se trata de substituir a vistoria da construtora, e sim de chegar preparado para ela. Na prática, funciona assim: a vistoria técnica é agendada para o mesmo dia, imediatamente antes, com memorial e planta em mãos. O relatório sai com registro fotográfico e localização de cada não conformidade, e é esse documento que instrui o preenchimento do termo da empresa.
A diferença de resultado costuma ser grande. Em vez de três anotações genéricas de acabamento, a construtora recebe uma lista objetiva, verificável e protocolada, com prazo legal correndo. É mais difícil de ignorar e mais rápida de resolver, o que interessa aos dois lados.
E se a construtora não permitir acompanhante técnico?
É raro, mas acontece de haver resistência. O comprador tem o direito de se fazer acompanhar por profissional de sua confiança na vistoria do imóvel que está adquirindo. Havendo negativa, o caminho é registrar formalmente a recusa e realizar a vistoria técnica logo após o recebimento, dentro dos prazos de reclamação.
