A instalação elétrica de um imóvel dos anos 1980 não está com defeito. Ela foi projetada corretamente para a demanda daquela época, e durante décadas atendeu sem reclamar. O que mudou não foi a instalação: foi o que se liga nela.
O que entrou em casa desde então
Naquela concepção, a maior carga da residência era o chuveiro, tipicamente entre 4.400 e 5.500 W. A cozinha era a gás. Ar-condicionado era exceção, não regra. Televisão, geladeira e ferro de passar completavam o quadro.
Hoje o chuveiro comum passa de 7.500 W. Em um apartamento dos anos 1980 que reformamos, o chuveiro instalado é de 7.800 W, contra os 5.500 W que a instalação original previa. É quase 50% mais corrente circulando pelo mesmo condutor, todos os dias, por vinte minutos seguidos.
E o chuveiro deixou de ser a única carga alta. A cozinha migrou para a eletricidade: cooktop de indução, forno elétrico, air fryer, micro-ondas. Somam-se dois ou três aparelhos de ar-condicionado, máquina de lavar e secar, e os carregadores que ficam ligados o dia inteiro. A conta que fechava em 1985 não fecha mais.
Não é só o fio
Quando se fala em atualizar a elétrica, a imagem que vem é a de trocar a fiação. É uma parte. Existem outras quatro que costumam estar defasadas junto, e ignorá-las deixa o problema pela metade.
A seção dos condutores. Foi calculada para a carga da época. Condutor subdimensionado não para de funcionar: ele aquece. O aquecimento contínuo degrada a isolação ao longo dos anos, e é assim que uma instalação que parece estar funcionando bem se torna um risco de incêndio.
As proteções. Aqueles disjuntores pequenos e escuros, de padrão antigo, protegem contra sobrecarga e curto. Não protegem contra choque. Quem faz isso é o dispositivo diferencial residual, o DR, hoje exigido pela norma nos circuitos que servem áreas molhadas. Instalação daquele período frequentemente não tem nenhum no quadro. O DPS, que protege os equipamentos contra surtos de tensão, também costuma faltar.
O aterramento. É a ausência mais comum e a mais séria. Muitas instalações daquele período têm dois condutores por circuito, fase e neutro, sem condutor de proteção. Equipamento moderno pressupõe aterramento. Sem ele, uma falha na carcaça do aparelho fica esperando: o DR só vai atuar no instante em que alguém encostar, em vez de desarmar antes disso. Tomada de dois pinos redondos, sem o terceiro pino, é o sinal visível disso.
O quadro de distribuição. Uso moderno exige mais circuitos independentes do que o quadro original comporta. Chuveiro pede circuito exclusivo. Cooktop de indução, também. Cada ar-condicionado, idem. Não é raro o quadro antigo simplesmente não ter espaço físico para a quantidade de disjuntores necessária.
O eletroduto é o gargalo que quase ninguém prevê
Aceita a necessidade de refazer a fiação, a suposição natural é que os cabos novos passarão pelos eletrodutos existentes. Foi para isso que eles foram embutidos na parede. Duas coisas atrapalham.
A primeira é a obstrução. Décadas de reformas deixam resíduo de argamassa, tinta e reboco dentro do eletroduto, e curvas fechadas ou trechos amassados terminam de fechar o caminho. No apartamento que reformamos, todos os eletrodutos estavam obstruídos.
A segunda é o diâmetro. A norma limita quanto da seção interna do eletroduto os cabos podem ocupar, e esse limite não é capricho: ele existe para permitir a passagem sem danificar a isolação e para que o calor gerado pelos condutores tenha para onde ir. Como o uso moderno exige mais circuitos e condutores de seção maior, um eletroduto que era adequado para a instalação original fica pequeno para a nova, mesmo estando desobstruído.
No caso daquele apartamento, os dois problemas apareceram juntos: obstruídos e sem diâmetro para os circuitos que a casa passaria a ter. Refazer a infraestrutura, e não só os cabos, deixou de ser opção.
Por que os números não se copiam
Este é o ponto em que muita reforma se perde. O cooktop de indução daquele apartamento recebeu circuito exclusivo com condutor de 6 mm². Esse número não vale para a sua casa.
A seção do condutor resulta de um cálculo que considera a potência do equipamento, a tensão de alimentação, a distância até o quadro, quantos outros circuitos dividem o mesmo eletroduto, a temperatura do ambiente e o modo como a instalação foi feita. Dois apartamentos com o mesmo cooktop podem exigir seções diferentes por causa apenas da distância.
Copiar a bitola do vizinho tem dois desfechos. Sobredimensionar custa dinheiro à toa. Subdimensionar aquece o condutor, e o aquecimento não avisa: ele degrada a isolação em silêncio, ao longo de anos. Por isso o dimensionamento é feito por cálculo, sob a NBR 5410, a norma brasileira de instalações elétricas de baixa tensão, por profissional que assume a responsabilidade técnica pelo resultado.
Há ainda uma prática comum e perigosa em instalações antigas que receberam acréscimos: trocar o disjuntor por um de corrente maior porque ele estava desarmando. O disjuntor protege o circuito quando os dois foram dimensionados juntos. Aumentar só o disjuntor não aumenta a capacidade do fio, apenas remove o aviso.
Sinais de que a instalação é de outra época
- Tomadas de dois pinos redondos, sem o terceiro pino de aterramento
- Disjuntores pequenos e escuros, de encaixe antigo, em quadro sem espaço livre
- Nenhum dispositivo DR no quadro de distribuição
- Um único disjuntor cobrindo a cozinha inteira, ou a casa inteira
- Disjuntor que desarma quando dois aparelhos ligam ao mesmo tempo
- Luz que oscila no momento em que o chuveiro é acionado
- Tomada, fio ou espelho que esquentam durante o uso
- Cheiro de material queimado perto do quadro ou de uma tomada
Esses sinais orientam a suspeita. Nenhum deles dimensiona nada. O que responde à pergunta do título é o levantamento da carga que a casa vai passar a ter, a verificação do que existe hoje de condutor, proteção, aterramento e infraestrutura, e a comparação entre os dois. É esse levantamento que diz se o caso pede um circuito novo, um quadro novo ou uma instalação inteira.
Antes de comprar, isso tem preço
Quando o imóvel ainda está sendo avaliado para compra, a pergunta muda de forma. Não é se a instalação funciona hoje, e sim se ela atende ao que a pessoa pretende ligar depois que se mudar. Uma casa que atende bem o morador atual pode não atender quem vai instalar cooktop de indução e três aparelhos de ar-condicionado.
A diferença entre reforçar um circuito e refazer a instalação com nova infraestrutura é grande o bastante para mudar a conta da compra. É informação que vale ter antes de assinar, não depois.
